As Rochas - Capítulo I

Feldspato Abstracto olhou, do alto do seu metro e quarenta, o cocuruto da cabeça do seu irmão, Quartzo Minguante. Parecia-lhe que ele estava menos brilhante, talvez mesmo um pouco baço. E não era para menos, considerando tudo o que ele havia passado nas últimas horas. Só ainda não conseguia perceber qual a ligação à família dos Xistos. Seriam verdade os rumores que lhe tinham chegado de um romance entre o seu querido mano e a quente Lava Xisto, a menina bonita daquela poderosíssima família? Ele tinha que confrontar Quartzo com esse boato.

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Penso Logo e Xisto encarou a sua filha e não teve conteve as lágrimas.
- Filha, o teu pai está doente
- Oh não, papá. O que se passa?
- Estou com metamorfismo.
- Oh papá, Vá lá. Não chore. Sabe que isso lhe provoca erosão.
Na verdade, ele não chorava por ele, que tinha tinho uma vida longa e feliz. Chorava por ela, a sua querida Lavinha que só agora começava a despontar para a vida, e que em breve ficaria só no mundo.
O mordomo entrou na sala e disse: - Sr. Dr. está aqui o Padre Basalto para o ver.
- Peça-lhe para esperar no escritório, Penedo. Eu vou já.
- Mas o que dizem os médicos? - continuou a filha.
- Bom, tenho tido grande actividade sísmica e dizem que em breve começarei com deriva dos continentes.
- Mas isso é horrível. E tem cura?
- Receio bem que não. Peço-te que nada comentes com ninguém. Se esta notíca chega aos ouvidos da Brita Cascalho, em breve todo o mundo saberá e temo pelas accções da nossa firma. E agora, se não te importas, vou receber o Padre Basalto. - Beijou-lhe a testa e saiu. Lava entrou em ebulição. Que notícia tão aterradora.
- Padre Basalto, como está o senhor? - inquiriu Penso ao entrar no escritório.
- Cá vamos andando, sr. Dr. Logo e Xisto. Desculpe a minha visita, mas estou com problemas na Missão Pedra e Cal e nunca fui bom a magmática. Por isso resolvi vir pedir-lhe ajuda.
- Pois com certeza, meu bom Padre. Com todo o prazer. Mas afinal, do que se trata?
- Bem, o melhor mesmo é contar-lhe a verdade. Sabe, eu pequei. É tenebroso ter que dizê-lo mas estou viciado em sedimentos.- Penso nem queria acreditar. O seu amigo e confessor agarrado! - Comecei por cheirar pó de talco, depois passei para evaporito e agora não consigo viver sem arenito. Que Deus me perdoe...

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- Então sempre é verdade, maninho. Com que então, tu e a Lava, hein? Quem diria. Meu mineralzinho.
- Não gozes, Feldspato. Nós estamos muito apaixonados um pelo outro. Até estamos com vontade de nos fundirmos. Só que o Pai dela nunca aprovaria a nossa relação, se descobrisse...
- Se descobrisse? Mas corre o boato em todas as pedreiras. Quem mo contou foi o Pedro Mármore.
- Detesto esse gajo. Ele e aquelas estúpidas da Estalagtite e da Estalagmite.
- Pois é. Juntas são dinamite. - Sempre que se lembrava das gémeas Calcário, Feldspato não conseguia deixar de se lembrar de uma noite louca que tivera com ambas. Nunca tinha tido a coragem de contar ao irmão, pois sabia a aversão que ele nutria por elas.

As Rochas - Capítulo II

Penedo era um homem de idade avançada. Cuidara de Penso, do pai e do avô deste. Agora as pernas tremiam-lhe, as mãos vacilavam, os olhos marejados de lágrimas. O seu menino estava a morrer. Seria possível que ele, seu fiel mordomo lhe sobrevivesse? E a menina Lavinha? Que iria ser dela? Quando ela tinha nascido, não fora ele que cuidara dela. Nessa época estava na moda mandar vir do Brasil uma náná especializada em tutoriar meninas ricas. Ele não se sentia tão próximo de Lava Xisto como dos seus ascendentes. A ideia de ficar a mordomizar a infanta incomodava-o, tornava-o inseguro. Era hora de se aproximar da pequena a fim de estabelecer laços mais fortes, antes que o doutor finasse.
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Brita Cascalho pousou o olhar no copo de vinho. Cheirava-lhe que havia um segredo na família dos Xistos, mas não conseguia descortinar qual.
- Pois é, meu amigo - disse ela, dirigindo-se ao seu fotógrafo, Arnaldo Rubi. -Temos de penetrar no seio dos Xistos -. Arnaldo, que era obviamente homossexual, ao ouvir o termo penetrar, empertigou-se na cadeira.
- Mas como? - perguntou.
- Podias tentar empregar-te na mansão como criado ou coisa parecida. Afinal, eles não te conhecem. Podias tentar saber algo através da criadage.
- Eu? Como? Bem sei que fico lindo de uniforme. Calça justinha na anca, casaco cintado... - Os seus olhos brilharam ao imaginar-se fardado, servindo os Xistos. A fotografia tinha começado como um hobby e agora via-se preso àquele pasquim. O seu sonho sempre fora ser criado.
- Mas acha que eles estão a precisar de alguém?
- Podemos sempre matar o jardineiro, ou o motorista...
- Credo, Brita!
- Estava a brincar. Vou tentar arranjar uma solução, não preocupes essa tua cabecinha.
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Adrianna Lapis-Lazuli saiu do carro e firmou bem os pés no chão. Estava de volta, após dez anos em que vagueara pelo mundo em busca de um objectivo para a sua vida. E foi ironicamente no local mais longínquo que alguma vez estivera que se apercebeu que o seu objectivo sempre estivera aqui, na sua terra natal. À medida que avançava em direcção à porta da mansão dos Xistos, o seu coração ia ficando apertado. Como a iriam receber? Lembrar-se-iam sequer dela? A força que a tinha impelido até ali fraquejou por momentos. Cerrou os punhos, mordeu os lábios, revirou os olhos, trincou a língua, estalou os dedos, coçou o queixo, escarrou para o chão e esfregou a sola do sapato no cuspo. Alguém lhe dissera que os pretos faziam isto em África, para dar sorte. Respirou profundamente, saltou ao pé coxinho e tocou à campainha. A porta abriu-se e a figura de Penedo apareceu-lhe, igualzinha ao que a sua memória retivera.
- Menina Adriana! - exclamou o mordomo.
- É Adrianna, seu maroto! - brincavam sempre os dois com o facto do velho nunca ter aprendido a dizer correctamente o seu nome. Ela suspeitava que ele tinha dificuldades com palavras com dois enes. - Olá, Penedo. Vejo que não te esqueceste de mim. Como vão as coisas?
- Vai tudo lindamente - mentiu. - Entre, entre. Vou anunciá-la.
- Deixa-me fazer uma surpresa. - adiantou-se ao velho serviçal e subiu a longa escadaria. Bateu à porta do quarto.
- Entre - replicaram lá de dentro. Abriu a porta e entrou.
- Adrianna!
- Lavinha!
As duas raparigas correram para os braços uma da outra. Adrianna olhou bem nos olhos da sua amiga de infância, entreabriu os lábios e beijou-a longamente na boca. O seu objectivo começara a ser cumprido.
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O Padre Basalto regressava da casa dos Xistos quando o telemóvel tocou. Era a madre superiora do Convento de Nossa Senhora da Rocha que lhe pedia que por lá passasse. A sua voz denotava pânico, terror, desgraça, quiçá medo.
- Madre Pérola, que se passa? - inquiriu o religioso ao entrar pelas altas e imponentes portas do convento. Este havia sido erigido no século XII, em memória de Nossa Senhora da Rocha, padroeira dos imbecis.
- Ai Padre Basalto, uma desgraça! Uma das meninas está grávida!
Ele engoliu em seco. Depois de se ter assumido viciado em sedimentos perante o seu amigo Penso, estavam prestes a descobrir que ele mantinha relações sexuais com todas as mulheres do convento, com excepção da Madre Pérola. Não era que ele não gostasse de mulheres mais velhas. Não. Já tinha dado grandes fodas com septuagenárias. É que ela era feia como o Caraças, um antigo colega seu do seminário. Sempre que olhava a madre superiora vinha-lhe à memória o rosto do Ardósia Caraças.
- Mas... grávida como?
- Grávida, grávida, padre! Prenha. De balão. Embaraçada.
- Mas como foi possível, visto ser eu o único homem a entrar por estas altas e imponentes portas? - Ao terminar estas palavras, o padre realizou o que tinha dito. Os olhos da madre superiora flamejaram, num misto de cólera, inveja, ciúme, ódio, ira e outros sentimentos tão queridos dos religiosos.
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O mordomo dos Xistos tomou uma decisão. Tinha que se tornar mais íntimo da menina Lava se ela ia passar a ser sua ama e senhora. Dirigiu-se ao quarto da rapariga e quando ia a bater à porta, deteve-se. Do interior vinham gemidos e ais. Estaria a menina a sentir-se mal? Preparou-se para levantar a voz e perguntar se estava tudo bem quando ouviu a filha do patrão exclamar "Não pares! Não pares!". Estranho... Mais de um século a servir havia-lhe ensinado que mais valem pequenas indiscrições, do que incomodar os senhores quando estes estão embrenhados em algo. Sabia perfeitamente que durante as reuniões que o dr. Penso realizava no escritório, bastava-lhe olhar pela fechadura para saber se era altura de servir um lanche ou umas bebidas, sem ter que o incomodar, batendo à porta. Decidiu espreitar também desta vez.
A cena que se lhe deparou não o podia ter deixado mais confuso. As duas meninas, completamente nuas; a cabeça da menina Adriana enfiada entre as pernas de Lavinha e esta, contorcendo-se, gemendo. Que estavam a fazer? Ensaiariam alguma peça para a escola? Que devia ele fazer? Em consciência, decidiu tomar a atitude mais correcta. Ficou a olhar pelo buraco da fechadura o desenrolar dos acontecimentos.
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Penso Logo e Xisto tinha consulta marcada para as 15 horas e às 14 e 50 já estava no consultório. O seu médico. o Dr. Pedro Tumular, conhecia-o de longa data e Penso confiava nele como no seu velho mordomo.
- Pedro, diz-me. Há novidades?
- Olha, Penso. Vi algo nos últimos exames a que te submeteste que gostava de confirmar com novos testes. Sabes, nós, médicos da TV, gostamos muito de submeter os doentes a exames. "I would like to run some more tests", como dizem nas séries americanas. - De facto, o dr. Tumular, além de médico, era actor. Mas só interpretava papéis de médico. Infelizmente não o fazia na televisão americana, por isso, empregava a conhecida técnica «run some more tests» nos seus próprios doentes.
- Mas do que suspeitas?
- Ainda não sei. Não te quero dar falsas esperanças, mas se se confirmar aquilo que penso, Penso, talvez signifique uma luz ao fundo do túnel.
Logo e Xisto, apesar da amizade que nutria pelo médico, exasperava quando este utilizava linguagem demasiado técnica.
- Luz ao fundo do túnel? Estás a falar de morte?
- Não, que ideia absurda! É melhor esperarmos pelo resultado dos novos exames. Estudaste a matéria? - E ambos riram a bom rir.
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Lava acendeu um cigarro e rolou-o nos longos dedos. Na sua cabeça, um turbilhão de sentimentos e no coração, uma amálgama de pensamentos. "Mas isto é magnífico!", pensou. Sempre ouvira dizer que quem experimenta a homossexualidade para sempre fica gay. Mas ela tinha a certeza de estar apaixonada por Quartzo Minguante. Se bem que o sexo com Adrianna fora uma coisa ímpar. Obsessiva! Que fazer? Tentar que Quartzo entrasse numa
«ménage a trois»? Seria possível? Ela bem sabia que os homens ficavam enojados por ver duas mulheres a beijarem-se, a roçar os mamilos hirtos e empinados uma na outra. Abanou a cabeça. Nunca iria resultar. Adrianna voltou-se na cama e acariciou-lhe o interior da coxas firmes, ainda húmidas.
À porta do quarto, Penedo esteva quedo que nem um arbusto durante uma tempestade tropical. Arfava ligeiramente e fios de espuma escorriam-lhe pelo canto da boca, dando a impressão a quem o visse naquele momento que se iria candidatar à presidência da república. Acabara de assistir a algo impensável para uma pessoa da sua idade. Ele, que tinha sido educado no mais estrito fervor religioso. Ele, que nunca tinha casado nem tido experiências sexuais. E agora, aos 134 anos, tivera a sua primeira vez. Platónica, é certo. Mas nada seria como dantes. Tinha acabado de se apaixonar pela sua futura ama e senhora.
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Depois da conversa que tivera com o irmão sobre as manas Calcário, Feldspato Abstracto ficou com vontade de as rever. Talvez as encontrasse na discoteca. Vestiu-se à malandreco e rumou às pedreiras, zona de diversão da cidade. O seu alvo era a discoteca Fio de Prumo, nome um pouco estranho, como todos os estabelecimentos do dono da noite, João Lama Barros. Em tempos trabalhara para ele, mas depressa descobriu que isso envolveria, mais cedo ou mais tarde, viver à margem da lei e isso ele não queria. Considerava-se um cidadão exemplar, embora não pagasse impostos, violasse frequentemente as regras de trânsito e fumasse tabaco.
Entrou no antro da noite e percorreu com o olhar todas as pessoas que ali se encontravam, o que o deixou exausto. Tinha que deixar de fumar.

As Rochas - Capítulo III

Arnaldo Rubi suspirou ao entrar em casa. Após um longo dia entediante a fotografar modelos nuas, podia finalmente relaxar perante uma bebida e assistir ao seu programa favorito. "As Árvores" era uma série televisiva muito curiosa, em que todos os personagens tinham nomes relacionados com o mundo vegetal. A heroína chamava-se Ludomila Clorofila e estava apaixonada pelo filho de um maganata da família dos Carvões. Bastas vezes se tinha Arnaldo interrogado onde iriam eles desencantar estas ideias geniais. Oa autores deviam ser com toda a certeza pessoas sobredotadas.


No episódio daquela noite, Ludomila iria descobrir que estava doente com uma infeccção ao nível das mitocôndrias.

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João Lama Barros era um homem de poucas falas. Só tinha três. A fala normal, que toda a gente tem, a fala esganiçada, que empregava quando sentia irritação, ansiedade ou cócegas e a fala grave, cava, que utilizava nas relações com os seus subordinados. Agora estava a usar uma fala sinusoidal, alternando tons baixos com tons altos, quase esganiçando a voz no final das frases. Isto era novidade para Feldspato Abstracto, o que o deixou surpreendido.
- Que vens fazer aqui? - inquiriu o omnipresente senhor da noite.
- Porquê? Não posso vir beber um copo? - retorquiu Abstracto. Sentia-se um pouco intimidado pelo facto de ter sido agarrado pelos capangas de João e atirado para a cadeira onde se sentava agora. - Estamos num país livre! Se não me queres aqui, não me deixes entrar. Mas não uses as tuas tácticas de intimidação comigo. Já não trabalho para ti!
- Isso é o que veremos. Tenho uma proposta a fazer-te que te dará muito dinheiro a ganhar.
- Não farei o teu trabalho sujo!
- Então, então... Eu sou um respeitável empresário. Nada do que faço é ilegal, como bem sabes.
- Ah... - fez notar inteligentemente Feldspato.
- Estou preparado para te pagar a quantia de x se me fizeres um trabalhito.
- Que espécie de trabalho? - A soma de x fez baixar as defesas de Abstracto. Sabia que Lama Barros era um pouco sovina e que nunca pagava mais do que y quando precisava de algum favor.
- Necessito de um homem infiltrado no Vulcão. Ando há anos atrás da compra dessa casa. Já tentei várias estratégias mas parece que o dono antecipa sempre os meus movimentos. Tenho que saber se tenho um espião no meu staff ou se o gajo é mesmo adivinho.
- É só isso? Não vou ter que roubar nem matar?
- Ofendes-me com essas insinuações.
- E porque me estás a contratar? Por ventura não podes arranjar quem quiseres?
- Sabes, Patinho, eu sempre gostei de ti. Já o inverso não é verdade, eu sei.
- O meu nome é Feldspato! - Lama Barros era conhecido por alcunhar todos aqueles que trabalhavam para si, sempre com nomes um pouco diminuitivos. Era uma forma de se superiorizar perante os outros. - Não me voltes a chamar Patinho! E se queres os meus serviços tens que reunir as seguintes condições: dizes-me a verdade sobre o porquê de ser eu o escolhido e dás-me x+y pelo trabalho.
- Ôpa! Saidinho da casca, hein? - João fez uma pausa e prosseguiu. - Muito bem. Dou-te x agora e y assim que me trouxeres dados significativos. O porquê de seres tu é fácil de responder. Já trabalhaste comigo e durante esse tempo foste leal. Quando a tua consciência não aguentou mais, em vez de me traíres, como tantos outros tentaram fazer, simplesmente foste-te embora. Admiro a tua coerência e sei que posso confiar em ti. Além disso conheces a noite, mas o dono do Vulcão não sabe quem tu és. - Feldspato Abstracto olhou João Lama Barros um pouco incrédulo. Um elogio vindo dele... Seria uma boa coisa? X+y era muito dinheiro. Decidiu aceitar.

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A visão fazia-lhe lembrar um filme de Pasolini. A Madre Pérola deitada de costas; o hábito arregaçado até às ancas; pernas flectidas e entreabertas e a gritar-lhe: "Vá! Fornica-me! Fornica-me! Força aí!". O Padre Basalto cerrou os olhos e abanou a cachimónia até obliterar tais imagens. Nesse momento, a porta do gabinete abriu-se e a madre superiora entrou com uma freira jovem e esbelta. Era a grávida Irmã Sílica de Jesus.
- Vá, Irmã! Conte os seus pecados! - disse rispidamente a velha madre.
- Então, Madre Pérola! - interveio o Padre. - Eu é que sou o pecador. Eu é que a seduzi, num momento de franqueza. Ela bem disse "não!,não!", mas eu tinha lido algures que quando uma mulher diz não quer dizer na verdade sim. Eu só peço a Deus que me perdoe...
- Isso é tudo muito nobre, Padre Basalto. Mas o que vamos fazer?
- E se a levássemos à Clínica dos Arcos?
- Credo! - exclamou Madre Pérola, benzendo-se compulsivamente. - Mas que grande pecador me saiu o senhor, Padre! - E tu o que dizes, pequena?
Nesta altura, a bela Sílica de Jesus desfez-se num pranto de bradar aos céus.
- Eu... eu... - começou por dizer - eu quero ter esta criança. Eu sei que Deus já me perdoou. Além do mais, foi concebida em cima do altar da igreja. - A velha madre benzeu-se obssessivamente. - Ali estava eu, deitada no altar, a olhar Cristo na cruz, enquanto o Padre Basalto me penetrava ferverosamente. - A Madre Pérola benzeu-se exclusivamente. - E no momento em que lançou a sua semente em meu ventre, olhei Jesus nos olhos e ele me abençoou, pelo que sinto que também abençoará a criatura que está para vir. - A velha madre benzeu-se fisiologicamente. - Será uma criança concebida debaixo do olhar do Senhor- acrescentou Sílica que neste momento teve um vipe e desmaiou.
- Lindo serviço, sim senhor - censurou Madre Pérola, enquanto se benzia aprazmente. - E agora?
- Mais alguém sabe desta situação, Madre?
- Só nós três e a porteira aqui do 27, pelo que podemos estar descansados quando ao segredo da situação.
O Padre Basalto começou a tamborilar com os dedos na secretária de madeira de carvalho. Era uma peça de rara beleza. Datava talvez do século XVII ou talvez fosse do IKEA. O velho sacerdote nada percebia de móveis de estilo, pelo que prosseguiu com o tamborilanço. Aquilo ajudava à concentração. Costumava interpretar peças clássicas. Era um belo espectáculo para quem o visse a tamborilar com as suas mãos secas, os dedos esguios, cada um a tentar apanhar a atmosfera que havia presidido à composição das variadas peças. Neste momento interpretava uma selecção de obras escolhidas de Bach. Achava este compositor particularmente relaxante, quando tinha que elaborar pensamentos sobre as raparigas que engravidava.
- Já sei! - exclamou por fim. - Amanhã, no fim da missa, dirijo-me ao rebanho e digo que o meu amigo Padre Topázio vai organizar uns Jogos Sem Fronteiras espirituais e convidou uma Irmã do Convento de Nossa Senhora da Rocha para participar. E aí, a Madre Pérola designa a Irmã Sílica como representante do convento. Enfiamos a moçoila num sítio qualquer até parir, e depois logo se vê.
- Aleluia, Padre! Mas que bela ideia!
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Penedo sabia no seu íntimo que nada seria como dantes. O que agora sentia por Lava Xisto era uma coisa tão forte como um tornado branco. O velho serviçal, talvez devido à sua educação, ou talvez devido à sua idade, ou talvez devido a ser velho, ou simplesmente porque era racista, não gostava de pretos. Por isso, sempre que se lhe deparava uma dualidade, escolhi branco. Ele notava que com o passar do tempo, as dualidades eram cada vez mais frequentes. Seria a sociedade que assim o impunha? Seria a morte iminente de Fidel Castro? Seria do aquecimento global? Seria do apito dourado? Apito dourado? Mas que pensamento tão estranho... O que seria apito dourado? Dourado ou doirado? Parecia-lhe, na ingenuidade própria dos seus 134 anos, nome de casa de alterne. Não que ele fizesse a mais estúpida ideia do que era uma casa de alterne, mas mesmo assim era isso que lhe parecia. Touros ou toiros? Louça ou loiça? Touca ou toica? Ou ou oi? Quanto mais se embrenhava nestes pensamentos, mais se esquecia do início do capítulo e do que estávamos a falar e mais se sentia distanciado de tudo aquilo, do que quer que aquilo fosse.
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Brita Cascalho rejubilou de alegria quando viu o anúncio no jornal a pedir um criado para a mansão dos Logo e Xisto.
- Cá está aquilo de que estava espêrando. - Tinha vivido 6 dias no Brasil e inevitavelmente havia adqurido um pouco se sotaque. - Tenho que avisar o Arnaldo. Pegou no telefone e discou o número do fotógrafo.
- Estou? - disse do outro lado uma voz chorosa.
- Arnaldo? Estás a chorar, filho?
- É a Ludomila! Está doente!
- Arranjaste uma cadela?
- É a da novela "As Árvores".
Brita ficou confusa por uns momentos até compreender do que se tratava.
- E estás a chorar por causa disso, homem? Ó valha-me Deus! - Como Deus não interveio, ela prosseguiu. - Quero-te aqui amanhã bem cedo. Vais servir para a mansão dos Logo e Xisto!
- Vou ser criado?! Iupiii! - Arnaldo esqueceu imediatamente Ludomila e seus olhos brilharam com há muito o não faziam. - Obrigado, Brita!

A bisbilhoteira profissional sabia bem que poderiam estar perante um buraco no enredo. Senão, vejamos: Arnaldo Rubi assistia à novela após um dia de trabalho entediante a fotografar modelos nuas. Podemos pois supor que era de noite. E só agora ela via o anúncio no jornal? Não tinha perscrutado os jornais pela manhã, como boa profissional que se orgulhava de ser? Pensou mais um pouco no assunto e as suas ondas mentais começaram a interferir na ligação telefónica, pelo que deu uma desculpa esfarrapada a Arnaldo e desligou. Se havia buracos no enredo, talvez ela pudesse aproveitar-se disso. Talvez fosse como diziam. Os buracos podiam estar ligados uns aos outros e ela podia saltar para vários sítio do enredo quase instantaneamente. Podia saltar até ao fim, ver como acabava e voltar atrás para alterar o que não fosse do seu agrado! Este fascinante pensamento, fez com que fizesse xixi nas cuecas, o que a deixou embaraçada perante ela própria.

Os Reis de Portugal

Tenho recebido inúmeras cartas de leitores deste blog a solicitar a publicação de uma lista com os reis de Portugal. Pois bem, liguei ao Duque de Bragança que gentilmente me fez chegar a relação que abaixo vos deixo. Simultaneamente, fiz uma pesquisa na Net para apurar se algum dos nossos ilustres reis teria página pessoal, site ou blog a divulgar a sua obra. Por agora só descobri um blog do D. afonso Henriques. Com o tempo irei actualizando os links à medida que for possível. São 35 monarcas, ao todo

Bem hajam.


Lista dos Reis de Portugal

D. Afonso Henriques

D. Sancho I

D. Afonso II

D. Sancho II

D. Afonso III

D. Dinis

D. Afonso IV

D. Pedro I

D. Fernando

D. João I

D. Duarte

D. Afonso V

D. João II

D. Manuel I

D. João III

D. Sebastião

D. Henrique

D. António

-interregno quando perdemos a independência e reinaram os Felipes de Espanha-

D. João IV

D. Afonso VI

D. Pedro II

D. João V

D. José

D. Maria I

D. Pedro III

D. João VI

D. Pedro IV

D. Maria II

D. Miguel

D. Pedro V

D. Luis

D. Carlos

D. Manuel II







Dr. Ghozé Pablito na cerimónia de entrega dos Óscares 2005.

A Chuva

A chuva divide-se em três partes: a parte de fora, a parte intrínseca e a parte anímica. Só quando estão presentes estas três partes podemos considerar que estamos perante chuva. Doutro modo seria presunçoso aceitar uma qualquer nevralgia atípica de uma qualquer estirpe. E para vermos que isto é verdade, existe uma simples experiência que vos convido a efectuar.

Pegue-se num copo de chuva e adicione-se um corante vulgar, desses que se compram na rua e que pode ser de qualquer cor, sendo que tem que ser azul. Mexa bem a mistura, de preferência com uma colher de pau, mas de Cabinda. De seguida, isole-se numa sala escura em que não penetre qualquer raio de luz e faça incidir no copo um feixe de luz de uma lâmpada Reuter num ângulo qualquer, precisamente de 22 graus e 22 minutos.
Está a ver o que acontece? Então anote tudo minuciosamente num bloco de linhas Castelo, com uma Bic de escrita fina ou uma Bic de escrita normal, com tinta laranja ou tinta cristal e informe-me dos seus resultados porque eu nunca fiz esta experiência e 'tou doudinho para saber o que acontece.

A Mecânica Quântica Explicada ao Povo

Hoje vou explicar a Mecânica Quântica, mas só ao povo. Se você é de alguma forma pertencente a outra classe, agradeço-lhe que deixe imediatamente de ler este artigo científico.

O que é a Mecânica Quântica?

A Mecânica Quântica é a mecânica dos Quantos. Não, não é um povo intergaláctico, nem fruta tropical. É, na verdade, muito simples. Quando o leitor vai ao mercado municipal e pergunta à peixeira, essa mulher roliça e de bigode, com um perfume agradável colado à pele, que tantos nos ajudou, a nós homens, à imaginação da nossa puberdade, enquanto nos masturbávamos atrás dos arbustos, sonhando estar nos braços dessa vendedora de chaputa, perca e carapau, pergunta, dizia eu, o preço da pescada, diz: "Quanto custa a pescada, sua sardinha sensual?". Quando a leitora vai buscar o carro à oficina e pergunta ao rapaz musculado, de fato de macaco aberto até ao umbigo, cheio de manchas de óleo e manchas brancas (?) com uma tabuleta pendurada no peito que diz arnaldo, e você começa a sentir uns calores ao ver as mãos grandes e dedos compridos que ele tem, brinco na orelha, sorriso à Cristiano Rónaldo, pergunta, dizia eu, o custo do arranjo do seu jeep, diz: "Quanto custa a reparação, seu naco suculento imerso num fondue sensual?".

"Quanto", repararam? São estes quantos que fazem a Mecânica Quântica. Muitas pessoas pensam que esta disciplina é só referente ao último caso que referi. Mecânica - mecânicos. Não se baralhem. Os mecânicos dos automóveis devem o seu nome a Meca, essa cidade longínqua e mítica. De facto, os primeiros homens a reparar automóveis apareceram em Meca, em 2500 a.C., conforme escavações recentes que o meu vizinho Solipa fez aqui no quintal ao lado. A nossa Mecânica Quântica é a ciência que estuda a ligação entre o número diário de vezes que nós perguntamos "quanto custa...", "quanto é" e o dinheiro que efectivamente podemos dispor para efectuar aqueles pagamentos. Depois da entrada do Euro, que não é a moeda única como muitos insistem em chamar erradamente, pois se fosse única ninguém a tinha (só para dar um exemplo, eu neste momento tenho 15 euros no porta-moedas, não é portanto uma só moeda, são 15), depois da entrada da moeda única, dizia eu, a Mecânica Quântica sofreu um grande avanço, pois toda a União Europeia passou a quantificar do mesmo modo.

Portanto, povo, já sabe. Da próxima vez que perguntar "Quanto custa esta herdade de 100 mil hectares, com uma casa do século 17 e 87592 cabeças de gado e 3 galinhas" está a praticar Mecânica Quântica sem o saber. Quer dizer, agora já sabe porque eu lhe expliquei. Agora que penso nisso, vai ser um pouco aborrecido ficar com essa imagem na cabeça, cada vez que pergunta "Quanto custa esta merda" ou "Quanto custa aquele @*/#%=". Bom, o melhor será esquecer que leu isto. Ou então faça controlezê.

Bem hajam.

Homenagem a Felipe Fontes

Felipe Fontes é sem sombra de dúvida um dos nomes maiores da cultura e do fait-divers de Portugal, um vulto a ombrear com nomes como Badaró, Vítor Espadinha e a astróloga Maia.
Felipe Fontes nunca escreveu um livro, nem plantou uma árvore, nem fez um filho. Nunca disse nada interessante ou fez algo de nomeada. Quem o conheceu bem não se lembra dele e os que se lembram não sabem quem ele é.

Foi numa aldeia do Alto Minho, que fica por cima do Baixo Minho, que nasceu Felipe, nesse longínquo ano. Desde cedo que seus pais se aperceberam que Felipinho tinha um enorme talento para não fazer nada e passar completamente despercebido no meio de uma multidão de duas pessoas, uma das quais não apareceu por motivos de doença e a outra já nem me lembro do que estava a dizer.

Aos 7 anos entra precocemente para a escola mas desiste assim que aprende a escrever o seu nome. Com todo o talento do mundo, aquilo era quanto bastava para sangrar na vida. Digo sangrar, porque Fontes sempre teve problemas a pegar no lápis e acabava invariavelmente por espetar o bico nos sítios mais incríveis. Diz a lenda que certo dia, sentado na sua carteira na sala de aula, trespassou a jugular com um lápis nº 3, afiadíssimo como ele os gostava de apresentar todos os dias no início da classe. Diz que se esvaiu em sangue mas eu não acredito, somente porque não morreu. Digo eu...

Os registos a que tivemos acesso para documentar esta homenagem são omissos nos anos seguintes, indo encontrá-lo tão-só mais tarde, já crescidote, contando 72 anos. Muito alegre e brincalhão, era as delícias da tertúlia que todas as tardes se reunia em seu redor num café ali ao Conde Redondo cujo nome se me escapa agora. Ficaram célebres as anedotas que contava como só ele sabia e de que ninguém se lembra. Mais tarde, já no ocaso da vida que viveu ao acaso, Felipe Fontes recebeu do Presidente da República a Comenda do Olvídio, condecoração essa que figura no seu espólio agora patente na Feira Popular, no pavilhão dos espelhos distorcidos ou coisa que o valha.

Finalmente, numa noite chuvosa de Inverno, Felipe Fontes exalou o último suspiro, bolo que apreciava muito mas que nunca provou. Coisa de minhoto.Morreu como viveu, isto é, sem que ninguém desse por isso. Por este facto, o seu corpo nunca foi encontrado e há mesmo quem duvide da sua real existência. Eu não. A sua vastíssima obra inexistente é um marco na cultura e no fait-divers deste país, quiçá, um marco na longa caminhada do homem, talvez mesmo, e sem exagero, tão importante quanto a invenção da escrita ou o tetrapak.

Antes de terminar, não queria deixar de agradecer à associação de beneficiência "Os Amigos do Alzheimer" por me terem facultado o acesso a documentação valiosíssima sobre o malogrado Felipe Fontes, que ninguém se lembra onde se encontra (a documentação, porque o Felipe, esse...).